Review – Stranger Things: 3ª temporada

Por Gabriel Fernandes em

Netflix / Divulgação

No dia 4 de julho, dia da independência dos EUA, Stranger Things retornou para sua terceira temporada na Netflix. Assim como na anterior, que estreou no Halloween, o período de lançamento é o mesmo em que a história é ambientada. Nesse caso, o verão norte-americano dos anos 80. E agora, os protagonistas estão amadurecendo e a ameaça em Hawkins está muito maior. Esses elementos cresceram e a série também cresceu, afinal aquela produção estrelada por Winona Ryder e repleta de referências aos anos 80 que fez um sucesso inesperado no final de semana do dia 15 de julho de 2016, tornou-se um dos maiores fenômenos da Netflix, consolidando de vez elementos do streaming, como o modelo binge-watching, por ter sua trama ser construída como um filme de 8 horas.

Os Irmãos Duffer, criadores da série, diferente de como ocorreu na segunda temporada, desenvolveram grande parte da trama da terceira já tendo consciência do fenômeno que produção se tornou. Então, continuaram apostando no que deu certo, mantendo a mesma estrutura de como se fosse um filme de 8hs com os três atos muito bem definidos. Também apostaram no que caiu no gosto dos fãs, por exemplo, dando mais tempo para a irmã mais nova de Lucas (Caleb McLaughlin), Erica (Priah Ferguson), trazendo a dupla Steve (Joe Keery) e Dustin (Gaten Matarazzo) de volta, apostando no clima romântico entre Billy (Dacre Montgomery)  e  Karen (Cara Buono) etc. Não só isso, como também corrigiram algumas polêmicas anteriores, por exemplo, colocando Max (Sadie Sink) e Eleven (Millie Bobby Brown) como amigas tirando aquele clima de ciúmes entre as duas mostrado na temporada anterior; esquecendo a trama de Kali/Eigth que rendeu um episódio experimental na segunda temporada que não agradou o público etc.

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Apesar de tudo isso, algumas repetições narrativas ficaram mais disfarçadas esse ano pela nova ambientação e pelas novas questões que os personagens trazem agora que estão deixando de ser criança. Não há mais escola, é tempo de conseguir empregos de verão ou sair em um acampamento, tudo isso coloca os personagens em novas situações, mas a principal novidade aqui é o Shopping Starcourt. A produção comprou um shopping antigo fechado em Atlanta e reconstruiu lojas como nos anos 80. E isso não foi apenas pretexto para merchandising, eles conseguiram representar bem o impacto que isso causa em uma cidade pequena e o que isso signicava de modernização na época, além de retratar o espaço em que jovens se reuniam naquela época.

Mas a principal questão que o cenário traz, e que eles introduziram nessa temporada, é a política. O espaço prejudicou tradicionais comerciantes na cidadezinha, mas o corrupto prefeito Kline (Cary Elwes) fechava os olhos para esses e todos os outros problemas que o empreendimento poderia trazer, sob o pretexto de gerar desenvolvimento, quando na verdade só estava preocupado com seus interesses pessoais. Mas a maior das questões à que esse símbolo do sucesso do capitalismo norte-americano nos leva é justamente a grande representação do cenário político da época, a Guerra Fria. O tema já foi retratado de maneira bem sutil anterirormente, através da representação da paranóia entre os dois países em algunas cenas. Dessa vez também tem aspectos retratados de maneira sutil, como o enfoque no patriotismo, mas tem um elemento desse período que é o grande destaque da temporada. Obviamente se os norte-americanos já haviam conseguido acessar outra dimensão, os russos também estariam desenvolvendo projetos como esse e não estariam dispostos a ficar pra trás. Isso é uma ótima ilustração da corrida entre as duas superpotências, e do acelerado desenvolvimento tecnológico e científico que se originou daí.

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Outro destaque de Stranger Things é o amadurecimento. Desde o primeiro trailer, Mike (Finn Wolfhard) anuncia que eles não são mais crianças. E isso fica claro nos primeiros episódios, com eles lidando com novas questões e bem focados em seus relacionamentos, numclima de verão do amor. Os Duffer tinham a intenção de acompanhar o crescimento dos personagens como na saga Harry Potter, e conseguiram representar muito bem as questões dessa fase da vida, principalmente em Will (Noah Schnapp) e Eleven. Will perdeu parte de sua infância no Mundo Invertido e tendo que lidar com as consequências que isso deixou nele. Ele quer recuperar o tempo perdido, mas seus amigos já não são mais os mesmos, eles estão com outros interesses. Interesse em garotas (até Dustin voltou do acampamento com uma nova namorada), que Will não tem ainda, há teorias dele ser gay, porém os roteiristas optaram por manter sua sexualidade implícita. Enfim, todos os conflitos que isso trazia para o personagem foram muito bem representados, especialmente pela cena da Cabana Byers, onde Schnapp entra mais uma vez uma grande atuação. Já El está tendo cada vez mais consciência de seus poderes, e ao mesmo tempo está aprendendo a interagir melhor nesse mundo do qual teve a infância privada. Na amizade com Max, um dos pontos altos do novo ano, ela acaba assumindo seu próprio estilo e fazendo suas próprias escolhas, não estando mais tão dependente de Mike ou Hopper (David Harbour).

Se a 3ª temporada começa divertida e romântica, com as melhores referências que a ambientação em um verão de 1985 pode oferecer, isso dura por muito tempo. As coisas estranhas vão aumentando e o clima vai ficando cada vez mais tenso. E um dos grandes diferenciais da é que os monstros estão muito maiores e ameaçadores. Stranger Things 3 é mais assustadora, gore e nojenta que os anos anteriores. Os monstros horríveis estão sensacionais. A produção foi bem criativa com as criaturas e a série evoluiu muito em efeitos especiais. Agora, as criaturas do Mundo Invertido estão interagindo melhor com o nosso mundo, e isso permite o público se sentir mais ameaçado com o vilão e conhecer melhor seus propósitos. Então os antagonistas estão sendo melhor desenvolvidos que nos anos anteriores. Nessa temporada, tudo sobre o Devorador de Mentes é melhor explorado, até a tortura psicológica no seu novo hospedeiro, e isso rende ótimos momentos.

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Os Duffer repetiram a fórmula dos anos anteriores de dividir a trama em arcos, com cada arco se envolvendo com uma parte do mistério e no fim todos se reúnem para enfrentar o inimigo. Os novos personagens interagiram muito bem com os veteranos com núcleos já formados, como foi o caso de Robin (Maya Hawke) com Steve, Dustin e Erica, que diveram uma dinâmica incrível e divertida, servindo como uma evolução pra Steve; e os jornalistas do Thr Hawkins Post com Jonathan (Charlie Heaton) e Nancy (Natalia Dyer), com destaque para o assustador Bruce (Jake Busey). Esse último núcleo em específico, mostrou Nancy encontrando seu propósito e ainda abordou o forte machismo que as mulheres que trabalhavam na área sofriam naquele período. Era uma época em que as mulheres entraram mais no mercado e começou a existirem mais lutas contra essa desigualdade (é uma questão relevante até hoje), então eles retratarem essa característica foi uma decisão acertada, e nesse ano também encontraram a essência da personagem.

Em contraponto, um arco que não funcionou tão bem foi o de Joyce (Winona Ryder) e Hopper. Ele serviu para trazer alguns personagens queridos de volta como o Sr. Clarke (Randy Havens), que sem as aulas precisava de outro pretexto para aparecer; e o excêntrico jornalista Murray (Brett Gelman). Mas o arco teve alguns furos, e a motivação (o caso dos ímãs) não é tão consistente. Apesar disso o núcleo tem uma boa conclusão. Só que essa conclusão denota mais a relação de pai e filha entre Hopper e Eleven do que entre ele e Joyce, que é no que foca a narrativa. Mas nesse ano, toda a conclusão é boa. Eles foram criativos e não repetiram a mesma maneira de finalizar a história da temporada que nos anos anteriores. Além disso, na nova temporada os eventos finais tiveram maiores consequências. E é um final que deixa muitas incertezas para o futuro da série, com direito a cena pós-créditos.

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A nova temporada termina de maneira muito conectada a pequenos elementos do começo, destacando o elemento que permeia todos os aspectos da trama do novo ano: mudança. Sim, no final Stranger Things 3 é sobre mudanças. Nós mudamos, crescemos; o ambiente a nossa volta está em constante mudança… E isso é destacado em cada ponto da nova temporada. Por isso algunas repetições narrativas não ficam tão evidentes quanto na 2ª temporada, porque as mudanças são maiores que isso.

A própria série está muito maior, e essa nova ambientação na cidade e nova fase na vida dos personagens possibilitou a inclusão de novos temas, visual, abordagem etc. Mas sem perder a essência. Uma série nostálgica e que tem protagonistas de várias gerações possibilita belas reflexões sobre mudanças, e os Irmãos Duffer souberam aproveitar isso muito bem com mais uma vez com um roteiro bem construído e uma direção apaixonada. Os dois anos de espera valeram apena, Strager Things está mais madura e entrega uma temporada com muitas novidades numa história que diverte, assusta e no fim emociona.

Comentários
  • toygame lan

    Stranger Things 3 temporada,foi melhor que a segunda que foi bem fraca e arrastada,mas mesmo essa teve alguns problemas serios.

    Personagens como mike,lucas e will foram meros figurantes nessa temporada,tinha falas e arcos bem fracos e rasos.Que poderiam ser be melhores explorados

    Joyce e Hopper ficaram num arco de romance ridiculo e a parte dos russo foi mega mal utilizado e generico.

    O nucleo do “sorvete” foi a que teve melhor desempenho e a Nancy tbm.

    • Gunz

      Não vejo problema darem menos importância a eles,Joyce e Hopper foi bem forçado mesmo.No mais não vejo nada tão problemático assim.Stranger Things continua uma delícia de assistir,da vontade de ver e rever sempre!

      • toygame lan

        Mas o problema é que os garotos são os protagonista e o Will mesmo nem relação com o irmão e ma~e teve nessa temporada de tão apagado que estava

        • Gunz

          Mas essa relação do Will acho que já não era tão necessária,foi 2 temporadas assim,só mudaram o foco,pois estes personagens já estavam desenvolvidos.

    • Gabriel Fernandes

      Não tenho essa impressão negativa da segunda temporada como a maioria. Ela é mais sombria, expande a história abordando as origens de Eleven e mostrando outra pessoa com habilidades especiais, mostra mais do Mundo Invertido e tem o Devorador de Mentes que é um ótimo vilão.

      Eu gostei do arco de amadurecimento dos personagens. Realmente Mike e Lucas tinham papéis mais importantes nas outras temporadas. Mas achei o arco de Will ótimo pq ele perdeu parte de sua infância tendo que lidar com o Mundo Invertido, aí quando ele volta as coisas não são mais as mesmas, seus amigos têm outros interesses e ele não está preparado para essas mudanças. Achei que ficou muito bem representado, e também dá um descanso, ele já sofreu demais nas outras temporadas hehe. Joyce e Hopper tiveram um arco com um ritmo ruim e com uns furos mesmo. Concordo que os melhores foram a tropa Scoops que tem uma ótima dinâmica e Nancy, finalmente entenderam a personagem.

      • toygame lan

        A segunda foi mega arrastada.
        Tentou fazer um arco só para a 11 e a coisa no final levou a lugar nenhuma e nem expandiu nada.
        ST é uma serie muito simplista de referencias e que tenta se forçar a ser algo grandioso.

  • Luis Fernando

    Na primeira temporada o Jonathan parecia gay… Depois virou machão … Só isso já não me convence
    Ps:é bom revisar a matéria antes de postar, muitos erros de português e algumas frases sem sentido

  • Gabriel Fernandes

    A primeira é mais tensa mesmo, acho que por causa de todo o mistério envolvendo o Mundo Invertido e o Demogorgon, nas outras já conhecemos mais sobre isso. Mas diria que em cada temporada eles focam em um estilo de terror diferente, por exemplo, essa terceira em bem gore.

    • Pedro Henrique

      Concordo com você, sempre achei que seria mais díficil manter o “terror suspense” em uma segunda temporada.